Metodologia do Trabalho Científico
Aplicação na análise Universitária
Levantamento Tirocidal.
A universidade surgiu no final do século XI na Europa. O crescimento das cidades, maior divisão do trabalho e a formação de um espaço cultural comum a toda a cristandade criaram uma nova paisagem intelectual propícia à formação institucionalizada em vários campos do conhecimento.
Entende-se Universidade como totalidade. Conjunto de faculdades ou escolas do curso superior. Conjunto de disciplinas do curso superior. Conjunto do corpo docente e discente dessas escolas superiores. Edifício ou conjunto de edifícios, onde funcionam essas faculdades. Qualquer associação legal. Uma associação de alunos e docentes em busca de avanço e de conhecimento: Ensino – Pesquisa – Extensão.
A primeira universidade foi criada em Bolonha (Itália), em 1088. Logo depois, foram fundadas as universidades de Paris (França) e Oxford (Inglaterra). Em seu início havia três grandes campos de estudo: Medicina, Direito e Teologia. Para ingressar, o aluno devia obter antes uma formação literária e científica básica, o chamado ensino de base - o das artes - que constava do estudo de gramática, lógica e retórica e também de aritmética, geometria, astronomia e música. Após seis anos (geralmente dos 14 aos vinte anos de idade) o aluno obtinha o mestrado em artes. Para o doutoramento em Medicina e Direito eram necessários mais seis anos de estudo. Já o doutor em Teologia precisava de oito anos de estudo e devia ter idade mínima de 35 anos.
A escolástica era, por excelência, o método do intelectual da Idade Média. Este se baseava nas contribuições da civilização cristã e do pensamento do mundo antigo: Bíblia, Platão, Aristóteles, entre outros... Foi Santo Tomás de Aquino (que estudou e lecionou em Paris) quem elaborou a síntese entre o pensamento cristão e as idéias de Aristóteles, buscando unir fé e razão, questão essa muito presente naquela época e ainda hoje alvo de reflexões (Le Goff, 1993).
O Brasil, descoberto mais de quatrocentos anos após a Universidade de Bolonha ter sido fundada, ainda precisou esperar quase outro tanto para dar o passo inicial. A primeira universidade surgiu em 1827, em Olinda, Pernambuco, enquanto que em São Paulo a Faculdade de Direito (1827) e de Medicina (1913) foram as sementes para um desenvolvimento que não mais parou.
A Universidade de São Paulo foi oficialmente fundada em 25 de janeiro de 1934, sendo que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras se constituiu como eixo central do sistema universitário. A Psicologia era uma cadeira na Filosofia já em 1934, mas o Instituto de Psicologia como um órgão autônomo só passou a existir a partir de 1969, tendo hoje pouco mais de 30 anos, portanto. Considerando os cerca de 1000 anos de vida acadêmica na universidade, podemos dizer que nós ainda estamos nos cueiros...
Essas brevíssimas informações históricas mostram tão-somente que o interesse em sistematizar a pesquisa e o ensino do conhecimento humano, dentro de uma instituição, existe já de longa data, fato este que, com certeza, trouxe benefícios assim como prejuízos à criatividade no trabalho científico.
As dificuldades não são tantas quando se fazem outras pesquisas, não-clínicas, mas envolvendo a Psicanálise. Por exemplo, as pesquisas no campo da Psicanálise Aplicada utilizam-se do vértice psicanalítico para abordar produções realizadas em outras áreas do conhecimento humano. Encontram-se, facilmente, boas dissertações e teses cujo tema é a abordagem psicanalítica de obras literárias, artísticas, biográficas, ou mesmo científicas. A maior parte desses trabalhos encontrou abrigo nos cursos de pós-graduação das universidades, sobretudo nas faculdades de Psicologia.
Vários problemas se apresentam para a pesquisa em psicanálise na universidade. Definir com razoável clareza o foco de pesquisa, a questão que interessa e como será abordada essa questão é apenas o começo. O fulcro conflituoso central talvez seja relacionado aos problemas metodológicos. De acordo com Feyerabend (cf. Horgan, 1998), qualquer metodologia serve, o que não significa que qualquer método indiscriminado deva ser usado, mas sim, que o objeto de estudo requer que se descubra qual a metodologia adequada para estudá-lo.
Dentre os psicanalistas pós-Freudianos que mais contribuíram para o rigor científico da prática clínica, destaca-se Bion (1991). Foi ele quem se preocupou mais seriamente em propor uma teoria que pudesse ser usada para tornar generalizável aquilo que se observa na clínica, inclusive desenvolvendo um sistema de notação. Contudo, essa teoria é mal compreendida até por psicanalistas, pois é fruto do alto grau de desenvolvimento atingido pelo próprio Bion e que poucos têm alcançado. A sofisticação não decorre de ser uma teoria particularmente difícil, mas sim, de que sua apreensão é resultante do desenvolvimento pessoal do analista.
NEstou longe de ter uma proposta, mas penso e espero que a própria experiência venha a ensinar os caminhos.
Como afirmou Eizirik na mesa sobre Pesquisa, a Psicanálise, através de Freud, namora a Universidade desde seu início. Na verdade, não é a Psicanálise - que prescinde da academia - mas sim, os psicanalistas, pois a Universidade atrai muito e isso por vários motivos: interesse em ampliar o conhecimento, uma certa idealização da vida acadêmica, campo de trabalho em tempos razoavelmente difíceis...
A Universidade, em minha opinião, não forma o psicanalista, como afirma Gilberto em sua apresentação. A formação do psicanalista, como tal, dá-se pela própria análise e também analisando outros. Se ele não consegue desenvolver-se por esse método, não há outro, não há substituto à altura. É a clínica da auto-observação e da observação do outro na relação analítica que propicia o desenvolvimento do analista em sua específica atividade. Só se descobre a mente do outro, ajudando-o a descobrir-se, através da descoberta da própria mente. Não há outro jeito, tudo o mais é ilusório.
A academia, em minha opinião, contribui para outra coisa, como, por exemplo, para ajudar o psicanalista a pensar como um pesquisador, não como clínico. Isto ele aprende no exercício particular de sua profissão. Não é verdade que a pesquisa que o analista faz em sua clínica é a mesma que se pode fazer na universidade, num mestrado ou doutorado. Esta última supõe uma publicação de resultados que possam ser generalizados e compreendidos por todos. A pesquisa do analista na intimidade de seu consultório, o mais das vezes, é impublicável; esta é uma característica própria da atividade analítica. O analista pode, sim, usar sua formação para fazer um recorte no modo de abordar o problema que está interessado em examinar, numa situação outra, que não o setting analítico. Em minha opinião, ainda se está tentando descobrir se a Universidade pode fornecer essa outra situação. Penso que grandes são as dificuldades e os obstáculos, mas, ao que tudo indica, as portas não estão fechadas, nem de um lado, nem de outro.
Referências
Bion, W. R. (1991). Transformations. London: Karnac.
Horgan, J. (1998). O fim da ciência (R. Eichemberg, trad.). São Paulo: Companhia das Letras.
Le Goff, J. (1993). Os intelectuais na Idade Média. Lisboa, Portugal: Gradiva.
Schorske, C. E. (1990). Viena fin-de-siècle: Política e cultura (D. Bottmann, trad.). São Paulo: Companhia das Letras; Campinas, SP: UNICAMP.

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